Pular para o conteúdo principal

Agenda X Lucro


Causas sociais X Lucro

Em Administração, existe uma preocupação com o bem-estar dos funcionários, clientes e da própria região na qual a empresa está situada. Dessa forma, muitas empresas desenvolveram instrumentos organizacionais para impactar positivamente seu meio. Aulas de ginástica para operários, creches para que mães e pais deixem seus filhos, programas de replantio de árvores, respeito aos preceitos religiosos de seus funcionários são exemplos de ferramentas empresariais que permitem um impacto positivo da empresa no meio em que ela se encontra. A isso dá-se o nome de “função social da empresa”. Horácio Eduardo Gomes Vale[1]: “A função social da sociedade empresária é atingida quando ela atende aos princípios da liberdade, igualdade, dignidade, solidariedade, democracia, reduz ou procura reduzir as desigualdades sociais e cumpre os valores ambientais.”

Eu sempre prego que para tudo deve existir um equilíbrio. Quando não atingidos os valores que permitem um equilíbrio, existe uma deformidade na questão. Isso vale também para a função social da empresa. A função social da empresa precisa estar em equilíbrio com seu objetivo principal: lucro. Sem um lucro, empresas não se sustentam e, por óbvio, são fechadas ou vendidas.

Estamos vendo um certo desequilíbrio em muitas empresas e isso me preocupa. Empresas, por conta de uma procura cega por questões sociais, estão empregando em seus projetos uma agenda destrutiva, que não alcança nem mesmo a justiça social, ou o lucro. Lembro-me que a Gillette fez uma propaganda contra a masculinidade tóxica, que caiu muito mal aos olhos dos clientes. Nessa ocasião, os clientes reagiram e a empresa teve um decréscimo em suas vendas. O Washington Examiner[2] escreveu sobre a questão: “Gary Coombe called the loss of revenue from those customers a "price worth paying" in a Monday interview with Marketing Week. Procter & Gamble, the parent company of Gillette, announced Tuesday they had taken over $5 billion in losses for the quarter, after Gillette had an $8 billion noncash writedown after its market share for razors fell over the last three years.”.

Para mim, isso é uma burrice sem tamanho. É uma situação que afeta negativamente a empresa e inibe o lucro. Pior ainda é a resposta de um grande CEO da empresa, pois ele não protegeu a imagem da companhia quando teve a chance e, de forma até infantil, permaneceu no erro. Eu mesmo não uso mais produtos da Gillette.

Marvel também está incorrendo no mesmo erro. Segundo o The Guardian[3]: “Marvel’s vice president of sales has blamed declining comic-book sales on the studio’s efforts to increase diversity and female characters, saying that readers “were turning their noses up” at diversity and “didn’t want female characters out there”.” Netflix está caminhando para o mesmo caminho. Não cito a recente polêmica com Nosso Senhor Jesus Cristo, mas o que está sendo percebido pelo público norte-americano. Vigilant Citizen[4]: “Each year, Netflix dedicates over $12 billion to create exclusive, original content. This strategy is meant to attract new customers while keeping existing ones loyal to the brand. However, there’s a major problem: Almost all Netflix original content is heavily tainted by a clear, obvious and annoying agenda. And this irritates lots of people.”, resultado: “Netflix’s 2019 second-quarter results were nothing less than disastrous. The streaming company saw its first major loss of US subscribers (over 130,000 cancellations) while the number of international subscriptions barely reached 50% of what was forecast (2.7 million new paid customers). Stocks dropped by more than 10% immediately after the release of the report.”.

Com apenas esses três exemplos, Netflix, Gillette e Marvel, estamos conseguindo projetar que existe um desequilíbrio entre a agenda ideológica traçada pelas empresas e o lucro. A função social está sequestrada por uma agenda duvidosa. A posição ideológica adotada está indo contra a posição ideológica do público consumidor e isso está afetando a renda. Apesar de estarmos falando em empresas com aportes bilionários, essa postura terá consequências mais para frente. Nenhuma empresa resiste sem vendas e as empresas são essenciais para a democracia, pois são elas que mantêm a riqueza de uma nação e ajudam na manutenção do regime político. Horácio Gomes: “A empresa, ou sociedade empresária, enquanto agente econômico é fonte que produz riqueza, possibilita a contratação de pessoas, ocorrem fatos geradores de imposição tributária, desempenha forte papel ambiental, político, estratégico, nascendo daí a necessidade de sua manutenção para o bem social.”.

A agenda visa uma transformação social forçada, não natural, que a sociedade está lutando contra, e essa agenda está embasada em conceitos não científicos, com consequências ruins para a sociedade que a rejeita.  De tal forma, é preciso que os grandes investidores percebam que esse erro custará caro não somente para o bem econômico dos países, mas também para o bem social e político das sociedades. Prevejo, então, três finais para essa situação: o primeiro final é uma reação dos investidores e acionistas que farão uma mudança na agenda de suas empresas, em prol do lucro e pelo bem da sociedade que não deseja ter uma agenda forçada garganta abaixo. O segundo final é a constante queda de vendas, até que as empresas passem por alguma crise. Não esperemos pelo terceiro final, no qual as empresas conseguem oprimir a sociedade ocidental e lhe impor suas vontades. Que os investidores nos garantam um final feliz, isto é, o primeiro final.




[1] https://jus.com.br/artigos/56478/principio-da-funcao-social-da-empresa
[2] https://www.washingtonexaminer.com/news/gillette-ceo-losing-customers-over-metoo-campaign-is-price-worth-paying
[3] https://www.theguardian.com/books/2017/apr/03/marvel-executive-says-emphasis-on-diversity-may-have-alienated-readers
[4] https://vigilantcitizen.com/latestnews/netflix-is-losing-subscribers-in-the-us-the-untold-reason/

Postagens mais visitadas deste blog

Outros Papos Indica: O Cérebro que se Transforma

Norman Doidge é psiquiatra, psicanalista e pesquisador da Columbia University Center of Psychoanlytic Training and Research, em New York, e também psiquiatra da Universidade de Toronto (Canadá). Ele é o autor deste livro que indico a leitura. O livro, segundo o próprio editor, “reúne casos que detalham o progresso surpreendente de pacientes” que demonstram como o cérebro consegue ser plástico e mutável. Pacientes como Bárbara que, apesar da assimetria cerebral grave, na qual existia retardo em algumas funções e avanço em outras, conseguiu se graduar e pós-graduar. Um espanto para quem promove a teoria de que o cérebro humano é um órgão estático, com pouca ou nenhuma capacidade de se adaptar. “ Creio que a ideia de que o cérebro pode mudar sua própria estrutura e função por intermédio do pensamento e da atividade é a mais importante alteração em nossa visão desse órgão desde que sua anatomia fundamental e o funcionamento de seu componente básico, o neurônio, foram esboçados pela p

TOP 3 de séries que merecem remake!

 Existem muitas séries da década de 90, na minha opinião, que mereciam um remake (manter a obra original, apenas contando novamente a história, com a tecnologia atual disponível). Vou citar aqui 3 delas. Estas séries foram escolhidas, pois são séries que ainda mexem comigo, que ainda gosto e que ainda lembro delas como se tivesse as assistido ontem. Esse foi o critério de seleção para esse simples TOP 3, de séries da década de 90, que mereciam um remake.  Oh My Goddess A série mesmo começou em 1988, encerrando-se em 2014, contendo um total de 48 volumes. Ela entra na lista por conta do seu primeiro OVA, lançado em 1993, cabendo perfeitamente nessa lista. A animação realizada pelo studio AIC foi uma das mais belas que já vi e promoveu a criação de outras séries, sendo que a última, se não me engano, terminou em 2013, com outro OVA. Já se passaram quase 10 anos desde a sua conclusão. Um remake dessa série, contando-a do começo a o fim, seria uma ótima celebração. O mangá vendeu mais de 4

Antologia Scortecci 40 Anos!

Antologia para edição especial de aniversário de 40 anos da Scortecci editora, para a 26ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo (2022) e, enfim, para ser a edição comemorativa dos 100 anos da Semana de Arte Moderna. Como as poesias já fazem parte desse blog, não faria sentido reescrevê-las, então, deixo aqui cópias das páginas da minha colaboração. Foi uma honra poder ter participado de tão nobre edição comemorativa. Obrigado pela oportunidade.     Primeira parte: Segunda parte: