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O belo vive!

 O Belo vive;  Sonhos na neve;  Alma limpa!

World Dai Star

 

World Dai Star

Stella of the Theater

 

World Dai Star (Stella of the Theater: World Dai Star) - Pictures - MyAnimeList.net

Sinopse

Kokona é uma aspirante a atriz de teatro e ela fará de tudo para realizar seu sonho: ser uma World Dai Star, ou seja, a melhor atriz de teatro que se pode imaginar! Para tanto, ela se esforçará em estudar e aprimorar a sua interpretação e realizará inúmeros testes. 

(Spoiler leve) E, com muito esforço, ela acabará realmente aprovada em um desses testes para o grupo SIRIUS.


 

A sinopse é simples, mas o tema é complexo e profundo. Animação que estreou em 09 de abril de 2023 está sendo produzida pelo estúdio Lerche (Given, Classroom of the Elite, Monster Musume e Fate Grand Order) e, até o presente momento, em que esse texto está sendo escrito, ainda não terminou, e totalizará 12 episódios. Além disso, tem um grupo de produtores de peso assinando esse enredo, a citar: Studio Hibari, Lantis, Good Smile Company, Egg Firm, Hawkeye, GREE Entertainment, Bandai Namco Filmworks, Bandai Namco Music Live, Daito Giken.

 

É uma animação que me chamou a atenção por alguns motivos. O primeiro é que me lembrou de um embate que existe dentro do estudo da Comunicação sobre os papéis da indústria da cultura de massa. O segundo é a evolução da técnica de desenho. Sobre o primeiro, preciso começar a salientar que o enredo é original (não possuindo material anterior, como uma light novel), e que abrirá portas para um jogo que será lançado ainda nessa temporada  (Verão de 2023).  Essa premissa é de difícil execução, pois o teatro é a alma do ator em sua interpretação de um personagem e de uma cena, então, é necessário uma animação competente para fazer um trabalho que honre a atuação dos atores. E o enredo que aborda o teatro através de uma animação, e para a TV, deve dar calafrios nos estudiosos clássicos da escola de Frankfurt que alegavam, entre outras coisas, que a indústria da produção em massa tira a originalidade do produto e lhe confere um rebaixamento de status.

 

Mundo EducaçãoUOL escreve: “(Walter) Benjamin entendia que a arte, quando reproduzida por alguma técnica, tende a perder a sua autenticidade. Se pensarmos que até o século XIX qualquer forma de arte era reproduzida na hora (a música era tocada na hora, a pintura era feita na hora e a atuação teatral era feita ao vivo), no início do século XX, a reprodução da obra de arte pela tecnologia era uma novidade.

 

A cultura de massa tornou-se, no vocabulário da teoria crítica, uma manifestação cultural inautêntica, pois é fruto de um movimento de massificação da cultura, ou seja, de produção de elementos culturais para satisfazer os anseios de um mercado capitalista de vender tais produtos e utilizá-los para a propagação de um ideal de vida capitalista e consumista”.

 

Vamos um pouco mais para trás e vamos ver a origem do teatro através do dicionário. Significados escreve: “Acredita-se que a ideia de teatro tal como conhecemos hoje surgiu na Grécia Antiga, no século IV a.C. O termo grego “theatron” significa “lugar para ver”. No theatron eram realizadas cerimônias religiosas em honra a Dionísio, o deus grego do vinho. Na celebração da colheita de uvas (vindima) havia música, dança e apresentações do ditirambo.”

 

Diogo Costa[1], ao escrever para o site Mises, sobre a comercialização da arte, nos dá um relance sobre o tema também, mas por um olhar mais liberal e escreve: “Mas a comercialização da arte não necessariamente diminui sua autenticidade. Pelo contrário, as possibilidades comerciais de uma obra de arte costumam conferir mais valor ao trabalho genuíno. Não só isso: o comércio da arte permite que artistas sejam mais independentes, mais recompensados pelo seu trabalho e, no final, faz com que a cultura de uma sociedade seja mais diversa e de melhor qualidade. (...) A arte como mercadoria, portanto, enriquece nossa vida com mais acesso às culturas do passado e do presente, dá aos artistas mais independência, diversifica e amplia as criações culturais e, last but not least, é uma arma contra aqueles que querem destruir as instituições que permitem o florescimento do espírito humano. Devo entender, pela própria origem do teatro, que os pensadores de Frankfurt estão errados. A comercialização de obras de arte, do texto do Costa, nos dá referência também sobre a reprodução em massa das obras de arte que, por analogia, não perdem seu brilho quando são reproduzidas em massa. O teatro, então, milenar deus que a tudo provê com uma história, ou celebração, deve ser entendido como uma força inesgotável, sendo este um ser quase divino que não pode ser rebaixado por nenhuma industrialização, pois, mesmo sendo produzido em massa, ou, melhor escrevendo, reproduzido através da cultura de massa, não se diminui, mas se agiganta. O teatro mistura-se com o novo "lugar para ver" fazendo uma simbiose positiva e "possuindo" o veículo de comunicação atual. Em outras palavras, é através da cultura de massa que muitos conhecerão Shakespeare e, através da cultura de reprodução em massa, é que muitos poderão chorar com “Rei Lear”. Dessa forma, a cultura de massa se ajoelha ao teatro fazendo a este um serviço de propagação de grandes peças e o teatro, por sua vez, será enriquecido com novo público. Vencida essa questão, de que o teatro reproduzido se valoriza, podemos retornar ao animê propriamente dito.

 

World Dai Star, então, é um veículo de propaganda do teatro, mais precisamente de peças de teatro que as personagens interpretam, como “Alladin”, ou “Romeu e Julieta” que, mesmo sendo reproduzidas de forma parcial, nos dão um relance da obra como um todo e podem promover no telespectador a curiosidade pelas obras em questão. Existe até uma cena engraçada de um episódio em que a diretora escolhe mal a peça de teatro que será levada a um público infantil e o público, repleto de crianças, começa a chorar. Ou seja, até a questão da escolha certa da peça ao público é levantada. Para ser mais exato, a diretora levou “Rei Lear” e as crianças detestaram. Foi uma cena bem engraçada ver uma garotinha dando sermão na diretora por conta da péssima escolha.

 

 Ao focar nas questões de interpretação, o animê também se aprofunda na questão da peça fundamental de um teatro que é o seu ator, ou, no caso do animê, de atrizes. A trupe da SIRIUS é composta unicamente por mulheres.  Como Toriyama (criado de Dragon Ball) já escreveu, um animê precisa ter exageros, então, o autor dessa obra original, Takahiro (Akame ga Kill) levou ao extremo a questão do poder de interpretação das atrizes, aqui chamado de instinto, deixando-as em um nível próximo dos alunos da escola do professor Xavier. Esse exagero não desequilibra a história, pois não afeta na construção do enredo de maneira drástica. É até interessante ver como alguns desses instintos trabalham quando a atriz começa a interpretar seu personagem.  E, voltando a escrever sobre interpretação, elas dão um enfoque bastante interessante na questão da criação de seus papéis, nos fazendo passear pela história através de seus olhos, de suas visões de mundo. E aqui surge o segundo motivo que me surpreendeu, que foi a evolução da técnica de animação.

 

 

Notem, no vídeo acima, uma abordagem interessante. O animê mistura muito bem a animação 2-D (hoje não mais tão clássica assim, pois os estúdios estão usando cada vez mais programas que simulam o 2-D, não sendo mais um 2-D realmente como era feito na década de 80 com, por exemplo, técnicas no celuloide e desenho à base do bico de pena) com o 3-D. O 3-D dá ao personagem uma movimentação muito natural e pouco se difere do 2-D usado na série. É uma técnica de fusão do 2-D com o 3-D muito harmoniosa e isso ajuda muito aos seiyuus (atores de voz). O futuro parece promissor depois que vi essa série. 

 

Muito da emoção passada por uma cena depende da interpretação do(a) seiyuu, da qualidade do diretor de cena e da música. Nessa série, as seiyuus possuem um bom aliado que é a movimentação de seus personagens através dessa técnica 3-D (computação gráfica) que pode ter captação de movimentos para ter ficado boa desse jeito. A movimentação dos personagens, como se trata de interpretação teatral, é essencial e, quanto mais próxima da realidade, melhor ficará para dar credibilidade aos sentimentos das seiyuus e da força da cena em questão. Os atores de teatro fazem uso do palco ao máximo e não faria sentido mostrar uma série sem que os personagens se movimentassem em cima do sagrado palco. Eu fiquei encantado como eles conseguiram animar movimentos com tanta naturalidade e fazer com que essas personagens pudessem dominar o palco com bastante firmeza.

 

E isso contribuiu para me impressionar ao ponto de escrever esse texto. Uma série com roteiro original, que está ajudando a propagar o teatro, e algumas peças clássicas, com personagens carismáticas, usando uma boa técnica de animação de movimentos, dando ao personagem uma força de interpretação que eu não havia visto antes. Vale a pena conferir essa série se você gosta de teatro!

 

E, finalmente, falando do roteiro, ele é excelente! Os diálogos são bem construídos, as personagens são bem elaboradas e, portanto, carismáticas, as cenas são bem montadas e entrega um bom material para a construção de uma realidade na qual o teatro possui uma importância fundamental. É uma daquelas pérolas que eu preciso divulgar!

 

Ficha tirada do My Anime List

 Elenco

Kokona Otori: Manaka Iwami (Uma Musume: Pretty Derby Season 2)

Shizuka: Ikumi Hasegawa (Bocchi the Rock!)

Kathrina Griebel: Sally Amaki (22/7)

Yae Niizuma: Maria Naganawa (Kobayashi-san Chi no Maid Dragon)

Panda Yanagiba: Naomi Oozora (The iDOLM@STER Cinderella Girls)

Chisa Sasuga: Rico Sasaki (Kageki Shoujo!!)

Noa Hiiragi: Nanako Mori (KirakiraPrecure A La Mode)

 

Equipe

Director: Yuu Kinome (Idoly Pride)

Series Composition: Yasuhiro Nakanishi (Kaguya-sama wa Kokurasetai: Tensai-tachi no Renai Zunousen)

Character Design: Majiro (22/7)

Studio: Lerche

 

 



[1] É presidente do Instituto Ordem Livre e professor do curso de Relações Internacionais do a Ibmec-MG. Trabalhou com pesquisa em políticas públicas para o Cato Institute

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