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A Greve e o Pensamento!


A greve dos caminhoneiros e o pensamento ideológico e político

A greve dos caminhoneiros expôs as múltiplas vozes que expressam o pensamento brasileiro. Obviamente, estas vozes entraram em atrito. Se você não sabia a qual voz pertencia seu pensamento, esta greve te mostrou o caminho para o autoconhecimento. O texto é um resumo de diversas versões do pensamento ideológico e como estes pensamentos influenciaram na decisão de apoiar ou rejeitar a greve. Se você se identificar com algum ponto, pare, estude sobre os aspectos do pensamento que mais se encaixa com você e reflita sobre sua ação. 

Existe alguma área cinza? Sim, muitas! O pensamento e o comportamento humano não são rígidos e existem muitas variações. Um conservador muito irritado pode vir a pensar como um nacionalista e pedir intervenção militar, bem como um libertário pode achar que a greve exagerou por ferir a sociedade, portanto, o pensamento pode migrar por várias ideologias e transitar por áreas não muito bem delimitadas, ou seja, as áreas cinzas. O que oriento neste texto é o comportamento geral e estou desprezando todas as áreas cinzas, para facilitar o entendimento. Desprezo as áreas cinzas porque a transição por elas é temporária e o pensamento tende a retornar/fixar/equilibrar, em sua verdadeira base ideológica, qualquer que seja ela.


"A natureza humana traz dentro de todos nós um Robespierre e um John Adams, cabe a cada um decidir qual voz interna falará mais alto. " Ana Paula Henkel em "Pisando no freio da revolução", 01/06/2018 para o Estadão.


Pensamento Político-Ideológico, sem áreas cinzas! 



Conservador



Se você começou apoiando a greve mas, ao perceber que os animais estavam morrendo, produtos estavam sendo desperdiçados, o governo não iria aceitar a agenda de reinvindicações do setor e, por isto, a greve iria trazer grandes prejuízos para a sociedade, com retorno ínfimo, e decidiu por rejeitar a greve em seu final, você pode ser conservador.

Jackson Miranda[1] escreveu um texto chamado “Qual a ideologia da direita conservadora” e nele aprendemos que “em suma, o conservador prefere lidar com o mal que ele já conhece do que enfrentar um mal ainda desconhecido, que pode vir a ser muito mais terrível, causador de dor, sofrimento e destruição da sociedade. (...) Para a direita conservadora o que importa é que as instituições funcionem e que perante tais instituições os homens sejam iguais. É uma igualdade que torna o homem senhor de si, com direitos e deveres. Ideia diametralmente oposta a “igualdade de classe” do credo marxista.”

Para o conservador, ele não vai apoiar, neste momento, uma pauta de intervenção e defenderá/conservará sua sociedade contra a dor e o sofrimento que são consequências da luta entre os grevistas e o governo. Ele tentará preservar o funcionamento das instituições.



 Liberal



Se durante a greve, mesmo sabendo que o resultado seria muito danoso para a sociedade, mas você chegou a conclusão que os caminhoneiros ainda estavam em seu direito de pedir, pensando na questão do indivíduo, você pode ser liberal.

Roger Scar[2]: “Não há como ter liberdade econômica sem as liberdades civis.” No texto “Liberalismo: de esquerda ou de direita?” o autor defende que o Liberalismo seja uma terceira via a se contrapor à Direita e à Esquerda, porém, ele admite que existe uma Direita Liberal, que não escapa de suas críticas. Esta Direita Liberal defende liberdade econômica e individual. Para mim, como acredito que não existe uma liberdade plena, existindo restrições a toda ação humana, aceito que exista uma Direita Liberal.

Se você pensou mais no caminhoneiro do que na sociedade, você pensou mais no indivíduo que no coletivo.

Libertarianismo

Se você apoiou a greve pensando que não se faz um omelete sem quebrar os ovos, por isto, todas estas consequências se justificariam no fim, que a greve deveria ter ido até o fim, para o bem maior que seria maior liberdade aos caminhoneiros, e a quebra das regras e do domínio do Estado, você pode ser libertário.  

Alessandro para o Politize[3]: “É importante não confundir libertarianismo com liberalismo. A maioria dos liberais não tem problemas com alguma intervenção do Estado na economia e nem defenderia um capitalismo laissez-faire em sua versão mais pura, além de não se opor ao Estado estabelecer um nível considerado adequado de ordem. Para os liberais, a liberdade é um valor necessário para atingir outros objetivos, enquanto que para os libertários a liberdade é o objetivo em si.”


Nacionalismo



Se você aproveitou para pedir intervenção militar, pois acredita que somente as FFAA podem colocar ordem na nossa sociedade, você pode ser um nacionalista.

Carla Mereles para o Politize[4]: “O nacionalismo é uma ideologia política, uma corrente de pensamento que valoriza todas as características de uma nação. Uma das formas pelas quais o nacionalismo se expressa é por meio do patriotismo, que envolve a utilização dos símbolos nacionais, da bandeira, de cantar o hino nacional, etc. (...) Um dos ideais nacionalistas é a preservação da nação, na defesa de territórios e fronteiras, assim como na manutenção do idioma, nas manifestações culturais, opondo-se a todos os processos que possam destruir essa identidade ou transformá-la. Existem formas mais extremas de demonstrar esse sentimento nacionalista, que é o ultranacionalismo e/ou o ufanismo, que explicaremos mais tarde.

O grande ícone do sentimento nacionalista é o exército que representa o maior símbolo patriótico de uma nação, por isto, o pedido de intervenção militar é fruto do pensamento nacionalista.


 BÔNUS
O que é a Direita?










[1] Voltemos à Direita: <http://www.voltemosadireita.com.br/qual-a-ideologia-da-direita-conservadora/>
[2] Instituto Liberal: <https://www.institutoliberal.org.br/blog/liberalismo-de-esquerda-ou-de-direita/>
[3] Politize: <http://www.politize.com.br/libertarianismo-conceito/>
[4] Politize: <http://www.politize.com.br/nacionalismo/>

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