terça-feira, 29 de abril de 2014

Black Bullet- O Direito Negado!

Black Bullet – Capítulo 2- SPOILER

Este capítulo permeou a realidade de uma maneira interessante e, por isso, merece uma atualização para esta semana. Neste capítulo, foi-nos mostrada uma realidade muito próxima à nossa, de fato. Ao assistir diversas cenas, fui pego pensando: "algo parecido aconteceu aqui no Brasil" e, por causa dessa similaridade, decidi por divulgar este capítulo em especial e alguns pontos em comum com nossa sociedade.





Para quem não conhece a série, a humanidade quase foi extinta graças a seres parasitas chamados Gastreas. Os homens, então, refugiaram-se em cidades sitiadas. Algumas crianças foram infectadas pelos Gastreas, ainda no ventre de suas mães e possuem habilidades fora do normal, sendo a única esperança para nossa raça, bem como o grande medo da sociedade. Este é o background do anime. Neste capítulo, aprofundaram o conceito das crianças marginalizadas. O que acontece com estas crianças é o seguinte, elas sobreviveram, no útero de suas mães, ao ataque de Gastreas e receberam uma transformação genética do vírus do invasor. Esta transformação genética faz com que todas os bebês nasçam mulheres, possuindo habilidades superiores às de qualquer homem. Estas habilidades fazem com que estas crianças possuam olhos vermelhos, quando ativam este poder genético especial. Estas crianças, se não tratadas, transformar-se-ão em Gastreas no futuro. Estes pontos fazem com que surja uma dualidade: os homens necessitam delas para evitar a extinção da espécie humana,ã mas as temem por elas se transformarem em Gastreas no futuro.


Neste contexto, as crianças, com esta alteração genética, são marginalizadas e não possuem direitos. Ninguém as quer, mas precisam delas para controlar Gastreas que possam vir a surgir dentro das cidades sitiadas. Esta marginalização da criança lembra muito o livro Capitães da Areia de Jorge Amado (escrito em 1937).  O texto do Guiado Estudante assim resume o livro: “No início da obra há uma série de reportagens fictícias que explicam a existência de um grupo de menores abandonados e marginalizados que aterrorizam a cidade de Salvador e é conhecido por Capitães da Areia. Após esta introdução, inicia-se a narrativa que gira em torno das peripécias desse grupo que sobrevive basicamente de furtos. Porém, apesar de certa linearidade, a história é contada em função dos destinos de cada integrante do grupo de forma a montar um quebra-cabeça...


Voltando ao capítulo, Enju é uma destas crianças marginalizadas, mas que consegue se humanizar graças a seu iniciador (Rentaro). Ela é entregue a este policial civil, que a trata como uma pessoa (e ela é), dando-lhe boas condições para crescer e controlar o vírus. Assim como alguns personagens do livro, de nosso grande autor, estas crianças almejam uma adoção, embora ainda não possuam direitos. Elas roubam para sobreviver, formando grupos pequenos, como o de Pedro Bala. Assim como os garotos do livro de Jorge Amado, estas crianças moram em ruínas, em pontos da cidade longe de qualquer alcance da sociedade. É interessante notar que o animê tenha retratado esta realidade e a marginalização da criança e do adolescente, radicalizada neste contexto, é um problema bem tocado neste capítulo e o que nos faz entrar em outro ponto- o direito negado. 


Declaração dos Direitos das Crianças: 2º Princípio- “Toda criança tem direito a proteção especial, e a todas as facilidades e oportunidades para se desenvolver plenamente, com liberdade e dignidade”.


A Declaração dos Direitos das Crianças, em seu segundo principio, está completamente anulada nesta realidade. E isso me levou a questionar o quão próximo desta situação encontram-se as crianças brasileiras, que vivem em lugares nos quais o Estado não se apresenta. E a similaridade não para por aí, pois a Enju encontra uma criança que está roubando comida. Ela é pega por policiais e levada embora com brutalidade. Após insistência da Enju, Rentaro resolve ir atrás e interferir nesta prisão para, então, ver o problema mais grave em uma sociedade aonde os direitos não existem: a lei da bala. A criança é baleada em um local ermo, em uma tentativa de execução, mas sobrevive. Rentaro a leva para um hospital. Esta situação nos remonta à chacina da Candelária, e tantas outras, na qual o direito de um indivíduo lhe é negado, bem como a garantia mínima de sobrevivência. Quando isto ocorre, e a própria sociedade fecha os olhos para o pedido de socorro destas pessoas, a chacina começa a ocorrer. No momento em que a sociedade não soluciona o problema, cria-se um abismo de indiferença que resulta sempre em violência.





Neste momento, o vilão aparece e uma de suas motivações é revelada em uma pergunta: “Não acha esta sociedade errada”? Esta pergunta gira o enredo de ponta-cabeça e nos faz questionar a vilania. Quem seria o maior vilão? Seria ele apenas fruto de uma sociedade violenta? Ainda sem respostas, este vilão torna-se um rebelde em uma sociedade marcada pela desumanização do indivíduo.



Como se não bastasse tantas aplicações práticas deste enredo em nossa sociedade, o fim ainda iria revelar outra problemática. Na verdade, dois problemas. Na escola, descobrem que a Enju é uma criança portadora do vírus do Gastrea. Inicia-se a exclusão dela, com bullying provocado pelo medo, e o preconceito provocado pela falta de informação. Enju foge. Rentaro tenta acha-la.


Através de uma enredo rápido, afinal o capítulo nem chega a ter 30 minutos, todos estes problemas são apresentados, mas existe um sinal de humanização. Rentaro, ao procurar por sua parceira, revela seus sentimentos em uma clara demonstração de que os direitos não podem ser negados e que uma pessoa deve ser tratada como uma pessoa deve ser tratada, isto é, com amor e respeito. Isso é um sinal de que o enredo quer procurar por uma humanização dos personagens e um resgate de sua condição como seres humanos, da dignidade e da melhor conduta.


Black Bullet- capítulo 2, então, torna-se uma obra instigadora, nos fazendo questionar, lembrar e olhar para nossa sociedade, sendo uma obra de denúncia da mesma. Esta denúncia é fruto de eventos que ocorrem ao redor do globo. Espero que permaneça assim e que me mostre, ao final, um futuro brilhante, pois eu espero mesmo poder escrever sobre isso e motivar os meus leitores a buscarem um futuro com uma sociedade mais igualitária, entretanto, sabem como são as animações japonesas, algumas tem um fluxo inconstante no roteiro, mas espero mesmo que tenha uma humanização ao final. Toda obra que nos faz pensar é fomentadora de mudanças, por isso, deixo este capítulo aqui para que os meus leitores a conheçam.