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Reflexões sobre o passado: afirmações inocentes!




    Em tempos antigos, caros leitores, eu tinha dois amigos, parceiros de fliperama. Eram realmente amigos do peito. Uma época tão antiga que o fliperama recém havia lançado o primeiro Mortal Kombat e Tartarugas Ninjas era um joguinho que atraía várias pessoas. Neste tempo maravilhoso, um destes amigos me disse: “Se a ciência provar que Deus não existe, eu vou acreditar!” Eu venerava este amigo pela inteligência e, naquela época, eu concordei com ele. Coisas de criança, mas, naquela época, aquilo parecia a frase mais sensata e lógica já dita.


    A ciência tinha, em mim, essa definição de que tudo comprovado cientificamente deveria, então, ser verdade, pois a ciência atesta tudo de maneira empírica.  Ao ler uma obra de Popper, tão bem resumida em “O que é Ciência”, de Silvio Seno Chibeni (professor de Filosofia da Unicamp), que tive o primeiro choque. Acredito ter lido um dos primeiros textos de Popper em 1996. O professor assim descreve o texto de Popper:


“Popper rejeita que as teorias científicas sejam construídas por um processo indutivo a partir de uma base empírica neutra, e propõe que elas têm um caráter completamente conjetural. Teorias são criações livres da mente, destinadas a ajustar-se tão bem quanto possível ao conjunto de fenômenos de que tratam. Uma vez proposta, uma teoria deve ser rigorosamente testada por observações e experimentos. Se falhar, deve ser sumariamente eliminada e substituída por outra capaz de passar nos testes em que a anterior falhou, bem como em todos aqueles nos quais tenha passado. Assim, a ciência avança por um processo de tentativa e erro, conjeturas e refutações. “Aprendemos com nossos erros”, enfatiza Popper, (...)
A cientificidade de uma teoria reside, para Popper, não em sua impossível prova a partir de uma base empírica, mas em sua refutabilidade. Ele argumenta que somente as teorias passíveis de serem falseadas por observações fornecem informação sobre o mundo; as que estejam fora do alcance da refutação empírica não possuem “pontos de contato” com a realidade, e sobre ela nada dizem, mesmo quando na aparência digam, caindo no âmbito da metafísica.” (Sílvio Seno)


    A ciência, então, tornou-se, para mim, uma forma de explicação da realidade segundo a subjetividade do pesquisador, mesmo que possua base confiável de dados. Pois o homem é um ser em construção, ou seja, o interior dele é moldado por sentimentos e experiências únicas que fazem com que este indivíduo seja único. E estas experiências e sentimentos, talvez até traumas e desvios de personalidade, influenciam na interpretação dos dados. Os caros leitores devem estar achando isso tudo um absurdo, e que dados confiáveis, realizados mediante pesquisa, sempre trarão os mesmos resultados, mesmo que mude o pesquisador.





    Vejamos um exemplo clássico de observação: Lamarck e Darwin observaram um conjunto de girafas. Ambos os pesquisadores possuíam conhecimentos, estavam vendo a mesma espécie natural (não no mesmo tempo) e tinham os mesmos dados divulgados à época de seus estudos. Tiveram conclusões totalmente diferentes. Conclusões diferentes, pois são pessoas diferentes, com construções interiores diferentes. Alguns leitores podem ainda não estarem satisfeitos com este simples exemplo, então, formemos outro: Einstein era contra a interpretação de Copenhagen sobre suas teorias de alguns mecanismos quânticos (veja mais aqui). Novamente, mesmos dados aferidos por sistemas confiáveis, mas com duras e diferentes interpretações, pois o pesquisador difere em cada uma delas. Deste atrito, desta luta de interpretações, nasceu a frase que me levou a ler muitas teses de Einstein e nasceu, ali, uma paixão pela física. Uma frase que muitos podem achar boba, mas tocou fundo em mim: "Deus não joga dados com o universo", disse Einstein. 




    Por este simples fator, dentre tantos outros já aferidos pelo filósofo e professor da Unicamp, já poderíamos definir o quão errônea torna-se a afirmação deste amigo de infância. Afinal, tudo depende da luz interior do pesquisador. Fico muito feliz que toda evidência científica seja colocada à prova, pois isso reforça este texto. Evidências e interpretações são divulgadas por diversos meios e, com isso, pode-se recriar ou analisar e aferir se aquele experimento foi realizado da melhor maneira.


    É interessante ver que o ponto forte da pesquisa científica seja, justamente, o que nunca poderá confirmar a frase de meu amigo. A força da ciência é ser colocada à prova e ter novas interpretações do fato estudado (objeto de estudo). Isso promove inúmeras interpretações científicas sobre o mesmo assunto. E isso causa, como consequência, a evolução do pensamento científico. Daí, vemos pesquisas que apontam, por exemplo, que o café faz mal, outras que apontam os benefícios do café e por aí vai.  Outro exemplo, mas este voltado já para a crença religiosa, diz respeito ao Santo Sudário. Repetindo à exaustão: mesmo objeto de estudo, estudos semelhantes, interpretações totalmente diversas. Alguns pesquisadores alegaram que o sudário seria uma fraude. O estudo deles foi colocado à prova, novas pesquisas foram realizadas e, hoje, um novo grupo já confere veracidade à origem do sudário.  


    E eu, meus caros leitores, me sinto um “homem das cavernas”, pois tudo aprendido na minha época de escola, hoje, está desatualizado. A ciência é maravilhosa, pois muda sempre e evolui, nunca estagnando o conhecimento. Na minha época de escola nós aprendemos:


1)    Leis de Newton eram universais. Einstein provou que tudo é relativo.

2)    A matéria tinha somente três estados: sólido, líquido e gasoso. Hoje temos um quarto estado da matéria- Plasma

3)    Na minha época existia a teoria de Darwin. Hoje já estamos no NeoDarwinismo.

4)    A realidade era compreendida como tendo 3 dimensões. Einstein provou que existia uma quarta dimensão.  Hoje já querem adicionar mais seis ou sete a esta lista. Olhe só!

5)    Plutão era um planeta! Era sim!


6) A matéria era composta unicamente por átomos. Super-cordas nem era cogitada como teoria. 


    E estes seis pequenos exemplos provam, também, que, como a ciência evolui, nada pode ser dito como 100% certo, então, são exemplos de que a frase de meu amigo foi fruto de sua inocência juvenil.  


    Atualização em 20 de maio de 2012- pai da psiquiatria moderna escreve carta pedindo desculpas por errar a interpretação de dados de sua pesquisa mais contundente. Novamente, dados e interpretações diversas. Clique aqui para ler o texto completo!

“Para os crentes, Deus está no princípio das coisas. Para os cientistas, no final de toda reflexão!”  Max Planck

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