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Adeus

 Carta de Despedida Queridos leitores,   Escrevo estas linhas com o coração apertado, mas com a necessidade de ser transparente com todos vocês que me acompanharam ao longo desta jornada.   Nos últimos anos, venho enfrentando uma série de problemas de saúde que exigem atenção integral e cuidados constantes. Entre eles estão o diabetes com componente autoimune, hipotireoidismo, hipercolesterolemia, imunodeficiência e osteoporose grave, que já resultou em fraturas. Esses desafios têm impactado profundamente minha rotina e minha capacidade de manter o ritmo de produção de conteúdo que sempre busquei oferecer aqui.   Por isso, tomei a difícil decisão de dar uma pausa no blog. Não posso garantir quando — ou se — retornarei. Neste momento, minha prioridade precisa ser cuidar da minha saúde e buscar qualidade de vida dentro das limitações que enfrento.   Quero agradecer imensamente a cada um de vocês que esteve comigo, que leu, comentou, compartilho...

Conto no livro SETE (ed. Litteris)





Novamente, guardarei o teu amor! O início dos poemas do soldado imperial!
Conto na página 17


    O que é essa maldição? Eu penso comigo mesmo como poderia ter sido tão feliz e, ao mesmo tempo, tão cruelmente torturado. Quando eu a vi passar pelos campos de castelo, eu me impressionei com a beleza que deixava o próprio Sol envergonhado. Quando estava de vigia na torre, eu a via em confidências com a Lua. Os pássaros, corvos e corujas, lhe pareciam render graças.

   Em um dia de outono, a minha espada lhe foi útil. Atacada enquanto caminhava pela estrada real, seus guarda-costas, eunucos, rapidamente foram derrotados por vil criatura. Eles não tinham o que era preciso para defende-la. Eu a vi por acaso, quando estava retornando de meu treino matinal com a espada, ao lado de  meu fiel pai. Meu pai, guarda real de confiança de um nobre conde, foi o primeiro a pressentir o perigo e a se dispor a ajudar. Eu não tinha tanto fôlego, mesmo sendo mais jovem, pois ele defendia a nobreza com um espírito incorruptível.  Para ele, os nobres eram passageiros, mas a realeza parecia ser um estado de espírito permanente, quase uma filosofia que eu não podia entender.

   Pois ele entendia. A vil criatura, horrenda, com olhos que me fizeram tremer e duvidar da fé de meu pai, estava sob uma gentil e linda donzela. Raptada na sua inocência por um cruel serviçal das trevas.  Defende-la era meu propósito. Derrotar a criatura era o objetivo de meu pai. Meu pai atacou o Leviatã com a bravura que me fez inveja. Eu arrastei, sem a menor polidez, a donzela para longe da criatura. Os olhos da princesa eram lágrimas. Ela estava em choque por ter ficado a milímetros de dentes tão afiados. Seu lindo pescoço, branco como a neve, e com a pele tão lisa e suave, mostrava as marcas vermelhas de dentes.

   Meu bravo pai, honrando o símbolo da guarda real, atacava o bestial de maneira selvagem e, ao mesmo tempo, com destreza e frieza de coração. Eu poderia ser igual a ele? Poderia enfrentar horrenda fera, maior que um leão, apenas com minha espada e o brasão de minha casa? Pois eu saberia disso nesse momento. Meu pai lançou rápido ataque pela esquerda e feriu o dorso do animal. Com a lâmina fincada nas costas, o animal quebrou-lhe a espada com a força dos retesados músculos da coluna O meu honrado progenitor ainda tentou sacar de uma adaga, mas a cauda horrenda lhe jogara ao chão. Eu ouvi ossos se quebrarem. Agora, a fera me olhava como que com um único propósito: matar-me. Assustado, olhei para a donzela. “Desculpe-me, mas eu fugirei e buscarei ajuda”, eu pensara. Olhei para ela e vi pureza, medo e desespero. Queria livrar-me do fardo. Queria largar a espada e gritar por socorro. Mas, eu duvido, meus caros leitores, que tais palavras de covardia pudessem ser pronunciadas diante de um anjo tão encantador em situação de tamanho desespero. Não podia falar-lhe palavras tão vis . Coloquei-me entre a mulher e o monstro. Gesto insensato, cego e estúpido. Apaixonado!

   Sempre sonhara com um momento como este. Eu,  um bravo guerreiro em armadura dourada, em cima de um grande e poderoso corcel. Desafiando todas as trevas em nome do amor. Uma história que se repete na mente de cada jovem. Mas a realidade é outra: estava semi-nu, apenas as calças da guarda real e as botas de couro empoeiradas. Eu estava  suando e tremendo como um covarde. O monstro tinha quase o dobro de meu tamanho e o triplo da sede de sangue. A dama estava aterrorizada com a infernal criatura que se aproximava lentamente. O bestial me analisava para ver em quantas mordidas poderia me abater. Talvez pensasse em provar de meu sangue e sentir o gosto da covardia.

    Apesar disso tudo, eu não me afastei. O monstro avançava lentamente e eu permanecia parado. Minhas pernas queriam se mover para trás, mas meu coração queria ir para frente. O resultado disso é que eu não saía do lugar. Eu decidi. Vi meu pai agonizando, vi a jovem e bela futura rainha caída aos pés de um carvalho. Seu vestido estava rasgado e, por um breve momento, pude ver sua intimidade. A fúria tomou-me conta e eu me atirei contra ela- a criatura. Acho que a soma de fúria e remorso me jogaram em direção a boca do bestial.  Minha espada reluzia como a um pequeno raio que cortava o ar. Eu podia jurar que o vento gemia de dor. O animal se esquivava com paciência, esperando a vez de atacar e me reduzir a pó. A batalha prosseguia e o animal levava imensa vantagem em reflexo, força e velocidade. Por duas vezes, ele me rasgara o peito. Uma vez, bem mais grave, ele conseguira rasgar as minhas costas. Mas o que eu tinha de vantagem era a perseverança e a inteligência. Atirei minha espada longe. Eu mencionei inteligência? E esperei, convidando a criatura para realizar-se com minha jugular. Ela atacará sem pestanejar. Eu poderia dizer que planejava pular sobre a criatura e usar a espada de meu pai, que ainda estava sangrando o dorso do animal, mas, apesar de ter pensado nisso, não era o meu plano.

    A criatura avançou. E eu permaneci imóvel. A princessa parou de respirar, sufocada pela tensão. Eu sorri maquaivelicamente. O animal agarrou-me com suas garras para garantir que eu não fugiria. Não era minha intenção fugir. E, de súbito, senti a pressão sufocar minha garganta e um hálito quente a me apertar a jugular. Lentamente, senti minha carne esfacelar. O animal já preparava o rugido de vitória.  Eu mencionei mesmo inteligência? Era a hora!

Officium meum faciam!!!

    Como simples palavras podem mudar toda uma situação difícil! Meu sangue se fez fogo e minha carne se fez bronze. As garras do animal se quebraram, seus dentes derreteram e sua língua queimou. Palavras que na boca de outros nada faria, porém, em mim, de acordo com um sacerdote cristão, era um dom de Deus que expandia meu espírito acima do poder da carne. Imaginaram a cena? Meu espírito rompendo os limites da carne. O animal queimando vivo e a princesa desmaiando. Agora sim, aproveitei a agonia de meu inimigo e lhe retirei a espada de meu pai. Com a ajuda de minha espada, eu acabei com o sofrimento do animal. A batalha cessara e a vitória era minha e unicamente graças a Deus. Fui em direção de meu pai.

— Pai! Está bem?— perguntei-lhe

— A princesa... — ele apontara para a doce donzela caída.

    Eu sabia desta determinação e me orgulhava dele. Mas será que ele se orgulhava de mim? Um guerreiro que não vence a batalha pela espada, mas pelo subterfúgio de um Dom do Espírito? Esqueci estas dúvidas por um momento e fui ter com a princesa.

— Ilustre princesa, estás bem!? — amparei-a preocupadamente. Somente nesse momento, eu senti o perfume de seus cabelos e o toque macio de seu jovem corpo junto ao meu. Ela estava acordando.

— O que houve? — ela diz de maneira trêmula. — Instantes atrás, tu eras ouro e bronze. Que bruxaria usastes?

Que voz maravilhosa. Se ela me determinasse: “Vai-te depressa e mata-te”! Com esse nobre e belo tom de voz, com certeza eu obedeceria.

— Bruxaria nenhuma minha princesa. Assim como Sansão tinha força descomunal, o Dom do Espírito me promete expanção espiritual além dos limites da carne. Toda obra das trevas, que o Espírito toca, queima instantaneamente. Bastam três palavras em latim que significam: faça-se meu trabalho e o dom se manifesta.

— Soldado, estás ferido! — ela me surpreende e levanta-se de meu colo.— Deita-te e repousas!

Como ela, em poucos segundos, consegue força para se levantar e tentar cuidar de meus ferimentos? Que princesa faria isso? Sempre escutei histórias sobre princesas lindas e arrogantes. Entretanto, a beleza desta não lhe atinge o coração. Serás inocente? Uma mulher em um coração de jovem? Agora, eu me sinto envergonhado de quase ter fugido e orgulhoso de ter vencido um mal que tentara apagar essa divina chama da Terra. Comecei a ficar envergonhado e ela nem sabe o porquê. Não consigo tirar da cabeça o meu pecado contra este anjo. Olhei a intimidade da princesa. Que pecado! Desse dia em diante, eu jurei usar minha espada para protegê-la. Fui designado para ser da exército real, graças a meu pai, e sempre a protegerei com minha espada e meu amor.[1]


               [1]- Conto inspirado em alguns poemas do livro Despertar do Amor

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