domingo, 12 de abril de 2015

Cavaleiros do Zodíaco- Soul of Gold! Review e Polêmica!

Cavaleiros do Zodíaco: Soul Of Gold



Review e polêmica

Sinopse CR: “No Submundo, durante a luta contra Hades, os Cavaleiros de Ouro dão a própria vida para destruir o Muro das Lamentações e, assim, permitir que Seiya e seus amigos avancem na jornada. No entanto, Aioria e os demais cavaleiros de ouro, que deveriam ter sido aniquilados, acordam em um lugar belo e cheio de luz. Por que eles, que deveriam estar mortos, reviveram? Enquanto esse grande mistério permanece, em um novo encontro Aioria se envolve numa luta e então, quando a onda de Cosmo chega ao seu limite... acontece uma transformação na armadura de Leão!” Clique aqui para assistir no Crunchyroll, ou clique aqui para ver via Daisuki.



A Review- Parte A

A estreia dessa nova série me trouxe recordações da era de ouro de Cavaleiros do Zodíaco. Confesso que estava preocupado que pudesse haver mais influência no roteiro de séries atuais, como Ômega, do que da versão clássica que fez tanto sucesso no Brasil. Logo que a série começou, esse medo foi esvaindo até desaparecer por completo.


Soul Of Gold é Cavaleiros do Zodíaco, pelo menos nesse primeiro episódio, ou seja, um shonen de luta  clássico, com todas as qualidades e defeitos que um shonen dessa natureza traz. É uma série que respeita muito o trabalho original, com um traço semelhante ao do Kurumada, mas com um toque que não o deixa muito anos 80, com uma trilha sonora acertada e respeito pela série clássica. O principal ponto aqui é que a série parece querer respeitar o que o mangá estipulou, mas fazendo um ponto de equilíbrio com a série de televisão. Dessa forma, ele fez uma mistura interessante. Explico no parágrafo abaixo.


O personagem principal é Aioria de Leão e ele acorda, confuso, em Asgard (uma homenagem à série de televisão). Ele não sabe por que está ali. Ele não sabe por que não está morto. Em meio a essa confusão de sentimentos, ele conhece uma garota que luta contra o sucessor de Hilda de Polaris. Essa garota se chama Lifia. Nisso, Aioria se envolve em uma luta contra um Guerreiro Deus de Asgard.  Aí está uma homenagem ao mangá, pois os juízes de Hades tinham vantagem de campo contra os Cavaleiros que não tivessem sua armadura abençoada. Dessa forma, em Asgard, Aioria enfrentou o mesmo problema de vantagem de campo. O Guerreiro Deus tinha essa vantagem por estar lutando em casa. Logo, a armadura de Aioria se revelou abençoada e ele a transformou em uma armadura divina. Com isso, temos um ponto interessante de convergência da série de televisão (Asgard), com uma regra do mangá (Hades) e, também, um mistério.  


Já a questão técnica está muito bem realizada nesse primeiro capítulo, com uma boa qualidade artística. Destaque para a trilha de Hiromi Mizutani que acrescenta o sentimento correto a cada cena na qual ela está inserida. Mizutani já criou grandes pérolas, veja uma abaixo. Também saliento a homenagem que foi o encerramento.





Existem, claro, riscos a essa série. Como ela se passa em paralelo com a ordem cronológica da Saga de Hades, pode haver um furo de continuidade, se o roteiro não for cuidado com atenção. Caso eles cuidem bem do roteiro, essa ameaça passa a ser uma contribuição à mitologia de Cavaleiros. Outro risco é que parece que essa série tem restrições quanto a violência, pois o Guerreiro de Asgard sobreviveu ao embate contra Aioria (heheh) e isso pode prejudicar o andamento da série, pois as lutas passam a ter menos emoção. Se um inimigo não morre, é quase certo que o herói também não correrá esse risco, mesmo porque ele já está morto. Percebem?


Conclusão

A conclusão após a análise é que essa saga é mais próxima ao seriado clássico do que Ômega e A Lenda do Santuário e, portanto, possui muitas qualidades. Como eu gosto de animês shonen, com lutas clássicas, esse seriado é para mim e vou continuar assistindo.



A Polêmica- Parte B

Na verdade, já me disseram que eu tenho a alma implicante, assim como um professor que deseja corrigir tudo. Peço desculpas por isso. A polêmica se dá ao perceber que a força do enredo da série clássica parece estar se diluindo nessa nova geração. Notei, ao ler comentários de amigos, que isso está virando um Fla X Flu. Posso explicar melhor com esse exemplo: um pão pode ser apenas um pão, certo? Sim! Mas um pão pode ser também um símbolo religioso, certo? Sim! Dessa forma, temos um grupo que enxerga o pão como um alimento de fermento, trigo e água, assim como existe outro grupo que enxerga o pão como o Corpo de Cristo. Existe, também, o grupo que enxerga o pão como uma unidade que funde os seus dois significados.


Cavaleiros do Zodíaco parece que está vivendo assim na memória das pessoas. Para alguns, é uma série sem valor. Para outros, uma série acima de qualquer outra. Na verdade, temos que ter um meio termo. Um equilíbrio. Nas próximas linhas, pretendo demonstrar que a série não é uma maravilha e nem tão pouco um lixo. Provavelmente, serei excomungado por ambos os grupos! O que pretendo abaixo é provar que o caminho do meio (referência ao budismo) é mais adequado a isso.


Produto Comercial

Cavaleiros do Zodíaco foi feito para vender brinquedos. Soul of Gold, por exemplo, está com sua imagem vinculada a uma nova série de brinquedos, bem como de uma linha de jogos para Playstation 3 e 4, além de outras plataformas. Há muito tempo, Cavaleiros tem ajudado a Toei a ter um bom lucro todo ano, portanto, é um produto comercial de valor de mercado. Foi feito para vender produtos. Ana Lúcia Santana define bem a indústria de massa, da qual Cavaleiros do Zodíaco faz parte: “o francês Edgar Morin, define a cultura de massa ou indústria cultural como uma elaboração do complexo industrial, um produto definido, padronizado, pronto para o consumo”.   Dessa forma, Cavaleiros do Zodíaco, inserido dentro da produção de massa, torna-se um produto de vendas com o objetivo do lucro. Pronto, isso é fato! E ele possui erros de continuidade, dinâmica que se desgasta com gerações e, por bater sempre na mesma tecla, desgaste na própria imagem da franquia. Abaixo, trailer do novo jogo.






Pesquisa Quantitativa e Qualitativa

Por isso é uma série que pode ser jogada no lixo? Não! É uma série que possui um valor no enredo, mas isso vai demandar um pouco de tempo para provar. Para comprovar isso, imaginei uma simples busca quantitativa pelas tags: “dissertação” e “cavaleiros do zodíaco”. Achei 9.680 resultados. Isso me demonstrou que existem pesquisadores que podem estar usando a série para pesquisas culturais e acadêmicas. Que, destes 9 mil resultados, alguns poderiam me dar as ferramentas para construir essa prova.  Fui atrás de algumas dessas pesquisas, pois uma pesquisa acadêmica, pelo rigor com o qual é realizada, é a forma segura de demonstrar que existe valor em Cavaleiros do Zodíaco, pois o pensamento científico não admite que um objeto seja analisado se assim não for adequado, portanto, existe valor no objeto observado.


E porque estudar quadrinhos? Daniel de Souza Dutra, em “A MITOLOGIA GREGA NO MANGÁ SAINT SEIYA – CAVALEIROS DO ZODÍACO” responde, ao afirmar que: “Adotaremos aqui a posição de Carlos Krakhecke, que considera os mass media frutos de um regime democrático, onde a informação está acessível a todos. É dentro deste contexto que situamos o mangá Cavaleiros do Zodíaco como um produto que malgrado seu baixo valor econômico, é rico em representações culturais que remetem à Grécia Antiga.”


Em seu trabalho, Daniel expõe o mangá clássico de Cavaleiros ao estudo histórico e mitológico, para saber até que ponto existe a influência da mitologia grega em suas linhas. Ele faz um trabalho minucioso, colocando cada saga de Cavaleiros do Zodíaco em premissa, bem como as relações entre os personagens e sua versão mitológica. Ele escreve assim na página 60: “Após esta leitura sobre Atena, Hades e Poseidon, percebemos que o mangá Cavaleiros do Zodíaco contém referências à mitologia grega em quantidade, formando um conjunto que proporciona um conhecimento histórico sobre a cultura grega, que é uma das  principais bases do homem ocidental. Malgrado o enredo ser uma história fictícia, onde se  percebe o enfoque característico dos mangás shônen, que abordam principalmente batalhas entre pessoas com poderes extraordinários, o eixo que conduz o mangá é a mitologia grega; e a forma como ela é representada dá ao leitor conhecimento e entendimento parcial da cultura grega: a arte criada por Kurumada possui elementos arquitetônicos como templos e esculturas que remetem à Grécia Antiga; já sua abordagem literal conduz a questões filosóficas que misturam a crença em um destino inexorável (ed. 01, p. 51) com o materialismo de Demócrito (ed. 01, p. 58), desenvolvido em um plano onde as divergências entre os deuses tornam-se as divergências dos homens, e estabelecem o futuro da humanidade” (Daniel:2014)


No trabalho de mestrado “Hibridismos e mesclas culturais na construção de identidades e subjetividades emcampeonatos de cosplay” de Ilíada Damasceno Pereira assim ela relata, na página 12, como percebe o universo de Cavaleiros do Zodíaco: “Os apelos sociais nos quais estamos inseridos delineiam e traçam forças de existência capazes de configurar e moldar as formas pelas quais nos encontramos no mundo. Tais fluxos são caracterizados e visualizados pela autora como constelações, microuniversos e microcosmos responsáveis por afetar nosso corpo, ultrapassando a pele e movimentando órgãos e sentidos. Ao ler e me familiarizar com as ideias de Rolnik (1997), rapidamente criei analogias entre o conteúdo do texto e o enredo da série Os Cavaleiros do Zodíaco. Pode parecer uma perspectiva simplória e ingênua, no entanto, as constelações de poder que envolvem os guerreiros no desenho, de algum modo, configuram a forma como eles se encontram no mundo e enfrentam os caminhos que irão trilhar. São sua fonte de energia, vivacidade e poder.”


Em sua tese de mestrado, ela relata a importância de Cavaleiros do Zodíaco como um produto midiático e imagético que contribuiu para que ela pudesse, até, se aproximar dos entrevistados, além, claro, de ter sido a origem do SANA. O valor da série se mescla com a pesquisa e, com isso, ajuda a pesquisadora a conhecer o mundo dos cosplayers e a definir pontos de sua tese. O enredo da série dá a ela condições de reconhecer as ideias de Rolnik de uma forma diferente, ajudando na sua interiorização e compreensão.


Já a pesquisa de mestrado da Dr. Iara Tatiana Bonim e Irmo Wagner, chamada “EDUCAÇÃO EM ANIMÊS: OS CAVALEIROS DO ZODÍACO ENSINANDO SOBRE MASCULINIDADES” nos traz uma outra versão de estudos sobre o nosso tema. Eles pesquisam os comportamentos dito masculino e feminino, enraizados nos quadrinhos do Kurumada-san. Eles justificam a pesquisa ao afirmar: “As representações midiáticas não apenas divertem, mas estabelecem significados, valores e gostos que atuam na constituição da identidade da criança e do jovem, porque ensinam maneiras de ser, de pensar, e definem certas condutas como sendo apropriadas para meninos e meninas. As representações analisadas tornam exemplares certos atributos para a masculinidade tais como lealdade, fibra moral, força, resistência à dor, juventude, beleza. As lutas enfrentadas pelos cavaleiros em toda a saga ensinam como se tornar um vencedor, valorizando de modo especial a amizade, o domínio de si e a luta em defesa do bem. Adquirem relevo masculinidades vividas a partir de relações entre os cavaleiros e destes com os mais velhos, com os mestres, com o mundo e com as mulheres. Em Os Cavaleiros do Zodíaco produz-se um tipo de masculinidade tida como padrão, e uma definição de conduta e dos sentimentos apropriados para os homens”.



Conclusão Parte B


Enfim, podemos perceber através desses três exemplos acima que existe sempre signo, significado e significante em obras de comunicação, quer seja um quadrinho, uma música, ou um filme. Não existe a possibilidade de se perder o valor de algo, visto que cada leitor possui sua interpretação da realidade, mas existe também um signo único que une todos os significados e significantes. Ao se ler, ou assistir algo, o valor inerente do objeto lido, ou assistido, continua a permear a memória e a comunicação, existindo, portanto, valor sempre. Existe sempre valor em tudo que for produzido pelo homem. Em relação a Cavaleiros do Zodíaco esse valor é mais evidente, pois foi um marco na televisão e, por isso, recebeu diversos olhares e foi entendido de diversas maneiras e foi alvo de diversos estudos, portanto, possui, valor comercial, acadêmico e social.