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Conto: Hospício!


História fictícia



Chovia naquela noite. Eu lembro dos detalhes de cada passo. Estava sentado em uma cadeira no corredor da faculdade. Uma cadeira desconfortável, que não me permitia relaxar. Esperar pelo término da aula da minha mãe, que estudava Direito na Pós-Graduação, era uma das minhas atividades noturnas. Eu a acompanhava até em casa, pois me sentia melhor assim. Dava-me maior segurança não deixa-la andando sozinha à noite.


A aula dela ainda não havia terminado, mas o vento frio da noite chuvosa entrava impiedosamente pelas diversas janelas abertas. A estrutura da arquitetura deste prédio era interessante. As salas todas ficavam na parte esquerda do corredor, enquanto as janelas de observação para o pátio ficavam na parte direita. Não era uma estrutura funcional para uma faculdade e nem parecia ter sido criada para tal propósito. Até o rodapé do corredor era curvo para facilitar a limpeza. Não vejo isso com muita frequência em prédios de faculdade.


Como a aula não terminava, e eu estava sendo castigado pelo frio da noite, resolvi levantar da péssima cadeira e andar até o banheiro, que ficava na outra ponta do corredor. Seria interessante esticar as pernas, então, resolvi andar. Planejava pegar um café depois. Estava andando, olhando para o chão. Ao me aproximar do fim do corredor, notei uma presença pelo canto do meu olho. O reflexo, na janela que dava ao pátio, de uma senhora com cabelos curtos, lisos e pretos. Ela me olhava com certa raiva e estava com uma camisa branca. De pele morena, a senhora não tirava os olhos de mim. Olhos pretos que me fitavam através da mesma janela que eu a observava. Resolvi cumprimenta-la.


Ao tirar meus olhos do reflexo da janela, e virar o rosto em direção a ela, espantei-me. Não havia ninguém na porta da sala. Entrei para ver se ela havia ido se sentar. Sala vazia. Não poderia ser mais clichê esta situação em uma noite chuvosa, mas estava acontecendo comigo. Naquele instante, resolvi me afastar da porta. Fui em direção ao banheiro. Foi a pior mijada que dei na minha vida, pois me sentia observado a todo instante. A impressão que eu tinha era de que alguma coisa iria pular a porta do banheiro e me atacar. Maldita Samara e seu filme do poço japonês! Fiquei lembrando desse filme, enquanto estava no banheiro.


Lavei as mãos, sempre observando a porta do banheiro. Saí, peguei meu café e fui me sentar novamente. Encarava desconfiado o corredor. Da sala da minha mãe, um amigo dela sai para ir ao banheiro. Eu o cumprimento com um gesto de cabeça. Mateus, este amigo da minha mãe, vai em direção ao fim do corredor. Volto-me aos meus pensamentos, quando o ouço:


--- Boa noite!


Ao ouvir o cumprimento, avanço o olhar em direção a ele. Foi o tempo suficiente para ver que ele estava cumprimentando alguém naquela mesma sala vazia. A reação dele me assusta, pois ele recua, colocando os ombros para cima. Os ombros arqueados é sinal de susto e tensão. O recuo é sinal de surpresa, quando precisamos nos afastar instintivamente de algo que nos atemoriza. Ele tinha tomado um susto com algo.


Eu o espero retornar do banheiro. Não digo nada, para não influenciar qualquer reação. Desejo apenas observar. Ele estava com olhos fixos, mordendo o lábio inferior e as mãos no bolso. Olhos preocupados e a tensão ao morder o lábio dão sinal de que ele ficou pensativo quanto ao ocorrido, assim como eu. As mãos no bolso indicam o frio da noite e a tentativa de se aquecer. Fiquei pensando nisso até o término da aula.


Já estávamos de saída, eu e minha mãe. No nosso momento da partida, resolvi conversar com o segurança do prédio. Eu me direcionei a ele e o cumprimentei. Ele estava conversando com a atendente da guarita, mas parou para me ouvir. Então, perguntei:


--- O que era esse prédio antes de ser uma faculdade?


A minha resposta não vem dele, mas da atendente do estacionamento. Ela vira-se rapidamente para mim, com os olhos arregalados. Ele abaixa a cabeça. Eu volto a perguntar, desta vez olhando para ela. Ela responde:


--- Era um hospício!


Desse dia em diante, sinto como se fosse observado a cada momento que espero minha mãe naquele corredor. 




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