sábado, 17 de março de 2012

Conto do cavaleiro


    Conto do Cavaleiro!

Alerta!! Possui descrição de fortes cenas. Aconselho cautela aos mais jovens ao ler.




    A lâmina de minha espada reluz em vermelho sangue. Não é o sangue de um adversário que ela bebe, mas o meu próprio sangue que escorre pelo punho. Uma ferida grave em meu ombro. Encontrei besta-fera a altura de minha habilidade. Uma besta-fera cujas penas negras tremem ressoando uma estridente canção irônica. A ironia de conhecer minhas limitações. A língua pérfida desta besta dança, sibilante, reconhecendo meu sangue, minha fraqueza e minha dor. Ela avança lentamente, com suas patas de águia que desejam rasgar-me mais uma vez. Pela primeira vez, após ser consagrado guerreiro imperial, eu recuo diante de um adversário.  

    A vista torna-se turva. O ferimento impede-me de erguer minha espada. Oriento o escudo à minha frente e minhas palavras, ora salvadoras, não podem ser proclamadas, pois minha mandíbula sofreu forte impacto da cauda de dragão desta besta-fera. Não consigo dizer uma palavra, mas posso sentir, pelo olhar confiante de meu adversário, que o fim se aproxima. Sinto um sussurrar em meu ouvido. Não é o fôlego da besta-fera, mas palavras de uma Valquíria que veio buscar-me o espírito. Ela aguarda em cima de seu nobre cavalo. Como ela é linda e que armadura tão brilhante. Se meu adversário a visse, certamente recuaria diante de tão formidável figura. Os cabelos assemelham-se a raios dourados de luz, assim como os olhos assemelham-se às eternas geleiras do norte. Que rosto jovial! Ela é eterna, mas dou-lhe a idade de 20 anos.

    Curioso como é o comportamento do homem, pois esqueci completamente da besta-fera para contemplar a formosura que se apresenta diante de mim. Um grande erro, pois meu adversário não titubeia, avança, arrancando-me o escudo, e mordendo-me o pescoço. Pronto! Minha vida termina aqui. O golpe foi mortal e meu adversário aguarda para devora-me o corpo. Ele aguarda apenas que eu pare de me debater para, então, saciar-se com este guerreiro. Penso em minha adorada princesa, mas meus olhos já não enxergam nada. Princesa, minha amada!  Minha mente está bloqueada pela falta de ar que dos pulmões não chega. Ouço um choro ao longe. Quem será?

---- Não esqueceu de nada? Vai deixar a camponesa morrer após tua queda?

    Sim, finalmente as palavras da Valquíria fazem sentido para mim. As palavras conseguem chegar à minha alma e recordo-me que não estou sozinho nesta gruta negra e fétida. Vim, por ordem do rei, matar besta-fera que se alimenta de aldeões desta vila. Ao aproximar-me da gruta, entrei com dois de meus homens. Percebi uma camponesa no centro deste covil, ao lado de um lago de águas frias. Fui ajudar-lhe. Uma camponesa jovem, com um pouco mais de 25 anos. Olhos apavorados, lábios trêmulos e encolhida em um canto. Ela não conseguia falar, mas os olhos da camponesa, de cabelos ondulados e cor de mel, refletiram a agonia de ver a aproximação de tal criatura por detrás de mim e de meus homens. Criatura mais rápida que um raio. Voando em silêncio, arrancou as cabeças de meus companheiros com suas asas negras e, com um golpe de cauda acabara quebrando minha mandíbula. Tudo tão rápido!

    Se morrer agora, ela será devorada em seguida e, após ela, outra e outra até que novos cavaleiros sejam enviados. Muitos morrerão. Que minha morte não seja em vão. De súbito, revolto-me o espírito. Enquanto sou estrangulado por uma mordida que rasga minha garganta e tira-me o ar, o sangue e a vida, eu alcanço uma adaga em minha bota. Não é uma adaga comum. Presente de meu pai, esta adaga foi consagrada por encantos e é capaz de matar qualquer animal retirando-lhe o espírito e apreendendo-o dentro das joias do punhal.

    Abraço o pescoço da besta-fera e cada pena dela me rasga o braço, fatiando minha carne inúmeras vezes, mas alcanço a pele abaixo de cada pena e perfuro-a com a adaga. Parece que a besta-fera sorri, não imaginando o que esta adaga é capaz de fazer. Tento desesperadamente dizer as palavras que ativam o encanto.

----  Officium meum faciam!

    Não, embora sejam minhas palavras de encanto, não fui eu quem as disse. Valquíria, tão generosa, não veio buscar-me o espírito, mas o espírito de tal criatura. Foi ela quem proferiu o encanto e selara, no punhal, o espírito amaldiçoado da criatura. Ela aproxima-se e toca-me.

--- Engano teu, vim buscar teus aliados e a você, mas minhas ordens mudaram por uma simples oração, de uma princesa, que pedira tua salvação em uma prece cheia de amor. Tamanho amor não foi desprezado. Provei teus soldados, dando-lhes a chance de salvar um de vocês três. Os dois se olharam e pediram a tua salvação. Novamente, vi respeito e amor fraternal deles por ti. Vigiei cada pensamento teu e vi que, embora fascinado por minha beleza, teus sentimentos eram para com sua princesa e para com o seu dever. Decidi que a oração da princesa era justa. Vou restaurar-lhe a saúde e viverá. Outro dia nos reecontraremos.

    Após tais palavras a Valquíria leva o punhal e meus compatriotas. Fui deixado para trás. A camponesa levanta-se e corre para a aldeia chamando ajuda. Fui resgatado, passei uma semana em coma, mas recuperei-me. A primeira pessoa que vi, ao abrir meus olhos, foi minha doce princesa que salvara minha vida com seu amor. Restaurei minhas habilidades e voltei para casa, com minha doce amada mulher.  


Cotidiano

    Este conto faz parte de uma série de pequenos contos sobre um cavaleiro sem nome e sua princesa. Reuni alguns contos no livro SETE (Ed. Litteris) e trazem elementos góticos, fantásticos, de literatura romântica e elementos  místicos. Vou colocar, abaixo deste conto, um dos contos que está no livro Sete. O coloco aqui para conhecerem esta série de pequenos contos que eu tano gosto de escrever.